Professor de 71 anos vira “guru” internacional
Walter Lewin, 71, professor de física, sempre foi um dos docentes mais populares do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). E agora se transformou em guru internacional na Internet, graças a uma sala de aula mundial criada pela instituição a fim de difundir conhecimento no ciberespaço.
As aulas de física de Lewin, gravadas em vídeo, estão disponíveis gratuitamente no OpenCourseWare do MIT e lhe valeram adeptos em todo o país e em outras nações, que mantêm sua caixa de mensagens permanentemente lotada de elogios.
“Por meio de suas inspiradoras aulas em vídeo, consegui perceber como a física é BELA, simples e espantosa a um só tempo”, escreveu um garoto indiano de 17 anos em recente mensagem de e-mail ao professor.
Steve Boigton, 62, florista em San Diego, afirmou que “passei a caminhar com passo mais firme, e agora encaro a vida pelas lentes da física”.
Lewin leciona com a elegante e convicta desenvoltura que Julia Child ostenta ao ensinar culinária francesa aos amadores, e com um senso excêntrico de teatralidade que nos acostumamos a ver nos vídeos que se tornam sucesso no YouTube. Ele é parte de uma nova geração de astros acadêmicos que tomam o ciberespaço como palco, nos sites de suas instituições e até no serviço iTunes U, que oferece vídeos educativos a custo zero desde maio, em uma seção da loja online iTunes, da Apple.
Em suas aulas, disponíveis em http://ocw.mit.edu, Lewin bate em um estudante com uma pele de gato para demonstrar a eletricidade estática. Usando calção, sandálias, meias e um capacete, como uma espécie de nerd perdido em um safári, ele dispara uma bola de golfe com um canhão contra um alvo formado por um macaco de pelúcia equipado com colete a prova de balas, a fim de demonstrar a trajetória de objetos em queda livre.
Para demonstrar como um foguete decola, ele atravessa a sala de aulas em um triciclo acionado por um extintor de incêndio.
Por algum tempo, Lewin liderou a lista de popularidade nos downloads de aulas da iTune U, mas o panorama muda constantemente. Os astros desta semana incluem Hubert Dreyfus, professor de Filosofia na Universidade da Califórnia em Berkeley, e Leonard Susskind, professor de mecânica quântica na Universidade Stanford.
Na semana passada, a Universidade de Yale colocou alguns dos cursos e aulas de graduação de seus professores mais procurados na Internet, para acesso gratuito. A lista inclui “controvérsias na astrofísica”, com Charles Bailyn; “poesia moderna”, com Langdon Hammer; e “introdução ao Velho Testamento”, com Christine Hayes.
O MIT recentemente decidiu estender o sucesso de suas aulas universitárias online, criando um site especialmente dirigido a professores e alunos de segundo grau.
A julgar pelos e-mails que recebe dos fãs, Lewin, que também está entre os palestrantes do novo site, atrai estudantes de todas as idades. Alguns de seus alunos o comparam a Richard Feynman (1918-1988), físico premiado com o Nobel e conhecido por sua liberdade de espírito e por seu apego ao bongô. Feynman popularizou a física por meio de seus livros, palestras e participações em programas de televisão.
Com seus cabelos grisalhos e revoltos, óculos de aros grossos e intensidade ao falar, Lewin é um resumo perfeito da imagem que as pessoas fazem quanto a um cientista brilhante. Mas, como Julia Childs, ele é ao mesmo tempo grandioso e completamente acessível.
“Temos aqui a mãe de todos os pêndulos”, ele declara, ao se pendurar de uma bola de aço de 15 quilos que se estende como um pêndulo do teto da sala de aulas. O professor de 1,85 metro e 78 quilos oscila pela sala de aula como se voasse, e os cabelos dele flutuam na brisa criada por seu movimento.
O ponto da demonstração é provar que o período de oscilação de um pêndulo independe da massa ¿ a bola de aço, mais um professor – que seja sustentada por ele. “Oi, professor Lewin”, escreveu um fã chinês de 17 anos. “Adoro suas aulas inspiradoras, e adoro o MIT!”
Um fã que diz ser professor de física no Iraque dispara elogios ainda mais intensos: “O senhor é meu Pai Científico. A despeito da má ocupação e da guerra contra meu adorado IRAQUE, o senhor me fez amar os EUA porque o senhor vive aí e o MIT fica aí”.
Lewin se diverte com a correspondência dos fãs e com a idéia de que está difundindo o amor pela física. “Lecionar é minha vida”, diz. O professor, nascido na Holanda, disse que ensinar num curso obrigatório de introdução à física, para alunos do MIT, o fez compreender que “¿o que realmente importa é convencê-los a amar a física, amar a ciência”.
Ele diz que passa cerca de 25 horas preparando cada uma de suas novas aulas, coreografando todos os detalhes e podando o texto. “Clareza é a virtude dominante”, diz.
A diversão também importa. Em outra palestra sobre pêndulos, ele se encosta à parede, segurando bem sob o queixo uma bola de aço presa a um pêndulo. Lewin havia acabado de demonstrar como a energia potencial se transforma em energia cinética, enviando a bola em um vôo através da sala para arrebentar uma placa de vidro presa à parede.
Agora, o plano é demonstrar a conservação de energia. “Acredito tanto em conservação de energia que estou disposto a arriscar minha vida pela causa”, ele diz. “Se eu estiver errado, esta terá sido minha última aula”.
O professor fecha os olhos dramaticamente e deixa a bola cair. A bola oscila de um lado para outro, mas não atinge seu queixo. “A física funciona!”, grita Lewin, “e eu continuo vivo!”
The New York Times
fonte: tecnologia.terra